Primeira mesa debate arte, história, música e patrimônio cultural

Com o tema Enredandos as Redes, a primeira mesa do XII Festival de Artes trabalhou três abordagens diferentes em um mesmo debate. O primeiro palestrante, o professor de Comunicação Social na Universidade Federal de Goiás (UFG) e do mestrado em Performances Culturais na Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC), Daniel Christino, falou sobre “Perfomance, dissimulação e ambiência como enredos”.

Robervaldo Linhares Rosa, pianista, musicólogo e professor da EMAC/UFG, foi o segundo palestrante da manhã. Ele abordou “A Música e a história na Belle Époque carioca”. A terceira e última palestrante, a artista visual curadora e pesquisadora no campo da arte urbana contemporânea, mestre e doutora em artes pela Universidade de São Paulo (USP) é pós-doutoranda pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Lilian Amaral, fez uma apresentação e debate sobre “A Cartografia como Metodologia para conexão entre pessoas, cidades e patrimônio”.

Performance e ambiência como enredos

Daniel Christino fez uma breve apresentação sobre as cortes medievais no século XVI para abordar a noção de performance, passou pelos conceitos de Martin Heidegger para explicar a tonalidade afetiva e a ambiência e finalizou ligando esses conceitos com o debate sobre a realidade própria instituída pelas artes.

Daniel explicou que o conceito de ambiência relaciona-se com a forma que processamos o ambiente, a forma como o ambiente é constituído por dispositivos. O professor utilizou termos abordados por Heidegger para explicar a relação de afetividade que temos com os objetos ao nosso redor. “Todas as nossas relações com os objetos estão permeadas por afeto, os objetos tem a capacidade de estabelecer uma tonalidade afetiva. A ambiência trabalha a relação entre nossa sensibilidade e objetos como obras de arte que produzem vivência em nós”, argumentou Daniel.

O professor explanou ainda sobre como a ambiência relacionada com a performance dá uma ênfase maior na relação do homem com o mundo e afirmou que a performance é a construção de um espaço comum. Para explicar a construção performática, Daniel fez uma releitura das cortes medievais e mostrou a diferença entre dissimular e simular, a primeira característica esconde uma qualidade ou objeto que temos, enquanto a segunda mostra algo que não temos. “Ora o real, ora a ilusão nos recolhe; e a alma, em definitivo, não tem outros meios exceto o verdadeiro, que é sua arma – e a mentira, sua armadura”, finalizou Daniel ao citar uma frase do livro “A Alma e a Dança” de Paul Valéry.

Música e história na Belle Époque carioca

O professor Robervaldo Linhares começou sua apresentação fazendo uma abordagem histórica sobre o início da Belle Époque no Rio de Janeiro. Robervaldo relatou as profundas mudanças sociais que a capital carioca sofreu em sua paisagem urbana para embelezar a cidade e conferir ao Rio ares de uma cidade moderna e cosmopolita, a exemplo da capital Francesa, Paris. Nessa mudança, uma nova distribuição hierárquica e geográfica foi feita na capital, a elite passou a morar na região centro-sul e o “povão” na região norte.

Para mostrar a importância da arte como formadora de opinião, Robervaldo exibiu charges da época que criticavam essa nova divisão geográfica da cidade. Ao apresentar a primeira charge com o nome “Diz me o que cantas…direi de que bairro és”, o professor explanou sobre a relação entre a cidade e a música, entre as classes sociais e a música. “As práticas musicais se diferenciam em relação às regiões urbanas e as práticas culturais se diferenciam em relação às classes sociais”, disse Robervaldo ao afirmar que essa discrepância ainda existe. O professor ainda falou sobre como o violão na época era proibido na alta sociedade e o papel do piano como símbolo de status social.

Ao abordar sobre a figura do pioneiro, Robervaldo exibiu a segunda charge “Fala meu Louro…eu sou o rei do samba”. O musicólogo e pianista lembrou como o piano consegui interligar os dois mundos na época ao introduzi-lo no choro para que esse fosse aceito na alta sociedade e citou Chiquinha Gonzaga como exemplo. “A análise da Belle Époque carioca e dessas charges que a representam revelam um importante momento da história brasileira no qual as leituras dos espaços urbanos revelaram uma rede de enredos”, afirmou o professor. Robervaldo encerrou sua apresentação do tema com um áudio de uma regravação feita por ele de um samba da época.

Cartografia como metodologia para conexão entre pessoas, cidades e patrimônio

A artista visual Lilian Amaral iniciou sua explanação sobre a ideia da cartografia artística e social e da herança cultural baseada em objetos, no significados que as pessoas atribuem as coisas. Lilian afirmou que cartografia é pensar nas relações da parte com o todo, não apenas na relação espaço temporal, porque os espaços são reinventados pelo habitante humano que o performa.

A artista fez uma analogia entre cidade e museu. “A cidade é um museu e os bairros são acervos próprios”, disse Lilian ao começar uma exibição de fotos dos patrimônios culturais dos bairros estudados em seu projeto de pesquisa “Arqueologia de Rua: Realidade Urbana Aumentada”. Lilian ainda afirmou que a cidade é o lugar da experiência compartilhada, é o lugar da negociação do viver junto.

Lilian abordou o Observatório de Educação Patrimonial criado em 2010 na Espanha e citou a recente criação de uma Rede Internacional do Observatório de Educação Patrimonial. “O Patrimônio é ativo para pensar as relações do homem com o mundo. Há no momento um movimento de glocalidade, de reexistência do lugar, um movimento que utiliza o mapeamento e a cartografia para lutar contra a homogeneização do mundo globalizado”, relatou Lilian. A palestrante pediu para os participantes do festival aderirem a ação #oqueepatrimonioparavoce. Para isso bastar postar uma imagem de algo que conecte a pessoa com o que representa patrimônio na visão dessa e colocar a hashtag mencionada acima.

“Um som, uma comida, um objeto, uma mensagem, diversas coisas e pessoas compõem nossa memória e formam nosso patrimônio cultural”. Lilian entregou um papel a todos presentes e pediu que escrevessem o significado de patrimônio para cada um e depois interagiu com os participantes debatendo sobre os conceitos que foram escritos. A artista finalizou convidando todos para participarem da intervenção urbana “Laboratório Urbano: Cartografias e Territórios” que ela está realizando durante o Festival no pátio do IFG Câmpus Cidade de Goiás.

A segunda mesa com o mesmo tema, Enredando as Redes, acontecerá neste sábado, dia 22, às 9h no Cine Teatro São Joaquim. Guilherme Vaz e Paula Wenke serão os palestrantes.

 

Comunicação Social/Câmpus Goiânia Oeste

http://ifg.edu.br/aparecida/index.php/component/content/article/1-latest-news/1720-xii-festival-de-artes

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